O mistério de “La Bamba”
29 de Dezembro de 2008 às 11:03 Miro Leite | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 11133
Há dois anos, minha mãe, então com 78 primaveras, veio passar uma semana em São Paulo. Saímos para jantar e, pela proximidade, fomos à pé ao restaurante mexicano El Mariachi na rua dos Pinheiros.
Após pedirmos nossos pratos, começamos a apreciar o show típico, com músicas tradicionais do México executadas por um trio nativo. Coisa de primeira linha. A certa altura, minha mãe me pergunta se poderíamos pedir uma música a eles, insistindo que ela precisava ouvir La Bamba. Enquanto eu bolava uma estratégia (pedir ao garçon, ir lá diretamente, mandar uma nota), ela continuava a insistir, sem parar, que eu fosse lá pedir a tal música. Decidi escrever um bilhete em um guardanapo de papel, em espanhol (com o perdão dos mais tarimbados na língua), com texto mais ou menos assim:
Por favor, gustaria a mi madre (78 años) oír La Bamba. ¿Podrian ustedes ejecutarlo para ella?
É claro que o trio tocou com gosto, fazendo uma dedicatória a ela em espanhol. Ela ouvia quase em êxtase, balançando a cabeça para os lados, como uma criança.
Na época eu não fiquei curioso, mas este episódio foi me deixando intrigado com o passar do tempo, até este fim de ano 2008, quando ela voltou a passar uma semana comigo. Levei-a, apenas por coincidência, a um outro mexicano, desta vez mais na linha Tex-Mex. Chama-se Sí Señor! e, embora ele também tenha uma unidade em Pinheiros, fomos conhecer a da praça Vilaboim. O tema nos fez lembrar do trio de dois anos antes e o assunto voltou à tona. Perguntei a ela o porquê de tanta empolgação sobre a música La Bamba e ela, desta vez, contou mais detalhes.
Nascida em Itajuípe, no já delicioso estado da Bahia, minha mãe, então com dezoito anos, costumava passar férias na casa de uma prima em Itabuna, cidade vizinha. O ano era o de 1946. Em frente à casa ficava um pequeno hotel, utilizado com frequência por um jovem de vinte anos, representante comercial do laboratório farmacêutico Sydney Ross, produtor do Melhoral. Ele costumava chegar ao final da tarde com seu jipe de trabalho, parava na frente do hotel e tocava por alguns minutos a música La Bamba (veja como ele conseguia fazer isso sob demanda na década de 40, pois as fitas K7 não existiam ainda). Minha mãe, atraída pela melodia, fez amizade com o moço. Ela contou que a família possuia uma vitrola em casa e ele, prontamente, comprou um vinil com a música para dar de presente a ela.
A amizade virou namorico, que virou namoro, que virou noivado, que virou casamento, que a levou a Belém e que levou à criação da minha família.
Sem saber dessa história em tempo hábil, fiquei devendo os parabéns ao meu falecido pai, pelo bom gosto musical e pela sorte grande que ele tirou.
Onde o senhor estiver, parabéns e obrigado!
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4 Comentários Faça seu próprio
1. Bianca Fernandez | 6 de Janeiro de 2009 às 00:46
que massa, tio.. conseguistes detalhar a criação da nossa família melhor no blog do que naquele dia do carro. Obrigada, então, a você, que esclareceu tudo, ao Voinho, por ouvir tanto essa música e ao criador da música, que eu nem tenho idéia de quem seja..
2. Miro Leite | 6 de Janeiro de 2009 às 16:12
Oi Bica, La bamba foi uma música de grande sucesso quando interpretada por Ritchie Valens. Ela é, na verdade, a releitura de uma canção folclórica mexicana de mesmo nome. Bjs…
3. Adriana Almeida | 31 de Janeiro de 2009 às 14:44
Égua,como vc conseguiu arrancar essas coisas da mmãezinha?
Nunca imaginei esses detalhes!
Gostei mano!!
4. Danilo Paggi | 16 de Maio de 2010 às 20:54
Miro,
Valeu a indicação do post! Que história show de bola…
Coincidência à parte eu sabia da tecnologia, pois meu avô tinha um jipe na juventude, e chegou a comentar comigo como era a sensação do momento Hehe!
Abraço,
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